Ciências Sociais e Aplicadas
Demografia
Resumo
Esta pesquisa investigou o feminicídio no Estado do Ceará entre janeiro de 2022 e junho de 2025, utilizando uma abordagem integrada que combina técnicas de inteligência artificial, estatística e cartografia. O objetivo central foi desenvolver uma ferramenta baseada em processamento de linguagem natural (PLN) capaz de coletar e classificar automaticamente dados demográficos a partir de textos noticiosos. Essa ferramenta foi treinada com mais de 5.000 reportagens e validada para identificar variáveis como idade, cor da pele, localidade e circunstâncias das ocorrências. Após a etapa computacional, foram aplicadas análises estatísticas e cartográficas para robustecer a investigação. O conjunto de dados foi proveniente da SUPESP, IPECE e sites policiais. A análise envolveu o cálculo do índice de feminicídio (IF), correlações com variáveis socioeconômicas e a elaboração de mapas. Os resultados revelaram 174 vítimas identificadas. Destas, 49 % eram mulheres negras (39 % pardas e 12 % brancas). As faixas etárias mais afetadas foram 31–50 anos (36 %), seguidas de 18–30 anos (32 %) e maiores de 51 anos (25,6 %). Em relação às circunstâncias, 48,7 % dos casos envolveram cônjuges ou ex-cônjuges, 29 % tiveram relação com organizações criminosas e 22,3 % como outros ou desconhecidos. A Grande Fortaleza concentrou o maior número de ocorrências (68 casos), seguida pelo Cariri (26), Sertão de Sobral (24) e Vale do Jaguaribe (18). A evolução temporal demonstrou 49 casos em 2022, 45 em 2023, 60 em 2024 e 2025 com 11 ocorrências. As correlações mostraram forte relação com densidade populacional (R²=0,9822) e população total (R²=0,9947), além de correlação moderada com o PIB (R²=0,7004). Conclui-se que a ferramenta desenvolvida amplia a detecção de casos subnotificados, fornece indicadores demográficos precisos e, aliada às análises estatísticas e cartográficas, constitui uma ferramenta inovadora e aplicável ao planejamento de políticas públicas e estratégias de prevenção ao feminicídio.
Palavras-chave: Feminicídio, Inteligência artificial, Prevenção da violência